domingo, novembro 21, 2004

Mito do 10% a funcionamento cortical

"Mitos nos quais se acredita tendem a se tornar verdade." --- George Orwell (em The Collected Essays, Journalism, and Letters of George Orwell, vol. 3, edited by Sonia Orwell and Ian Angus, New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1968, page 6)

Aquilo que se propaga muito nesta sociedade, mesmo sem base científica alguma, passa a ser uma verdade absoluta. É o denominado senso comum.Um desses exemplos constata-se em várias pessoas ao afirmarem que o ser humano apenas usa 10% do seu poder cortical.Vou tentar escrever este post para elucidar esse equívoco.Primeiro que tudo há que explorar o início do mito. Este mito tem origem, provavelmente, numa interpretação errada de uma citação de Albert Einstein ou ainda de uma interpretação errada do trabalho de William James que escreveu em 1908 : "We are making use of only a small part of our possible mental and physical resources" (from The Energies of Men, p. 12), sabe-se que muitas pessoas desfocam as teorias à sua maneira.Agora vamos às provas fisiológicas da impossibilidade desta percentagem: para qualquer entendido em topografia cerebral é óbvia esta impossibilidade mas vou tentar explicar isto de uma maneira simples. O cérebro humano possui áreas específicas para tarefas específicas como a recepção de estímulos somato sensoriais, outra área para associar esses estímulos a dor,prazer ou seja associar estímulos a mapas sensoriais, e uma terceira área que integra essa informação com informações resultantes de outras áreas cerebrais tais como o córtex visual ou auditivo, permitindo assim integrar toda a informação recorrendo a imagens e sons.Pode-se comprovar que o cortéx auditivo se encontra no lobo temporal, o córtex visual no lobo occipital e o córtex somato sensorial a nivel do lobo parietal. Além destas áreas específicas existe o lobo frontal responsável pelo denominado pensamento e inteligência humana, sendo extremamente importante no pré planeamento e pré execução de tarefas. Existe também um número elevado de núcleos situados numa posição medial e no tronco cerebral que são, entre outras coisas, muito importantes no sono e em despertar desse sono, na coordenação dos movimentos, a denominada motricidade fina entre muitas funções importantes que permitem a homeostasia corporal e biológica de todos os índíviduos.10% de um cérebro significa que apenas 140 gramas do nosso encéfalo seria usado, já que a média do peso de um encéfalo humano é de 1400 gramas. Com essas 140 gramas seria de todo impossível albergar as funções referidas em cima, já para não falar de um sem número de funções e estruturas que o cérebro possui além destas mas não queria que este fosse um post com informação massiva e de algum modo elaborada.Com 140 gramas teriamos um encéfalo igual a de uma ovelha, e sinceramente, não vejo uma ovelha com as capacidades intelectuais caracterizadoras do ser humano. Se lhe disserem que o ser humano usa apenas 10% do cérebro responda-lhe com toda a certeza: Mentira, usamos 100% do cérebro, (muitas vezes das maneiras mais erradas e desperdiçando uma das maiores maravilhas da evolução)

Uma sugestão

Não tenham receio de usar o nosso fórum para colocar questões ou mesmo responder a outras, é uma das formas mais interactivas de participação e troca de conhecimentos e experiências, que pode ser feita tanto atrás de um nome não real como de um bem identificado. É só se registarem e escreverem aquilo que gostariam de saber ou aquilo que sabem, ou mesmo apenas para trocar umas palavras amigáveis (ou críticas construtivas) com os autores. Participem.

Fenomenal - "leadership"

The Qualities of Skillful Leadership
by Jim Rohn

If you want to be a leader who attracts quality people, the key is to become a person of quality
yourself. Leadership is the ability to attract someone to the gifts, skills, and opportunities you
offer as an owner, as a manger, as a parent. I call leadership the great challenge of life.
What's important in leadership is refining your skills. All great leaders keep working on
themselves until they become effective. Here are some specifics:

1) Learn to be strong but not rude. It is an extra step you must take to become a powerful,
capable leader with a wide range of reach. Some people mistake rudeness for strength. It's
not even a good substitute.

2) Learn to be kind but not weak. We must not mistake kindness for weakness. Kindness isn't
weak. Kindness is a certain type of strength. We must be kind enough to tell somebody the
truth. We must be kind enough and considerate enough to lay it on the line. We must be kind
enough to tell it like it is and not deal in delusion.

3) Learn to be bold but not a bully. It takes boldness to win the day. To build your influence,
you've got to walk in front of your group. You've got to be willing to take the first arrow,
tackle the first problem, discover the first sign of trouble.

4) You've got to learn to be humble, but not timid. You can't get to the high life by being
timid. Some people mistake timidity for humility. Humility is almost a Godlike word. A
sense of awe. A sense of wonder. An awareness of the human soul and spirit. An
understanding that there is something unique about the human drama versus the rest of life.
Humility is a grasp of the distance between us and the stars, yet having the feeling that we're
part of the stars. So humility is a virtue; but timidity is a disease. Timidity is an affliction. It
can be cured, but it is a problem.

5) Be proud but not arrogant. It takes pride to win the day. It takes pride to build your
ambition. It takes pride in community. It takes pride in cause, in accomplishment. But the
key to becoming a good leader is being proud without being arrogant. In fact I believe the
worst kind of arrogance is arrogance from ignorance. It's when you don't know that you don't
know.
Now that kind of arrogance is intolerable. If someone is smart and arrogant, we can
tolerate that. But if someone is ignorant and arrogant, that's just too much to take.

6) Develop humor without folly. That's important for a leader. In leadership, we learn that it's
okay to be witty, but not silly. It's okay to be fun, but not foolish.
Lastly, deal in realities. Deal in truth. Save yourself the agony. Just accept life like it is. Life
is unique. Some people call it tragic, but I'd like to think it's unique. The whole drama of life
is unique. It's fascinating. And I've found that the skills that work well for one leader may not
work at all for another. But the fundamental skills of leadership can be adapted to work well
for just about everyone: at work, in the community, and at home.


O amor pela Sabedoria

Ola companheiros de viagem

Sabendo de antemão que a ignorância é uma dor da qual todos tentamos fugir, a minha consciência obriga-me a ler procurarando um analgésico, analgésico esse que encontra na leitura.

Em concordância com esse objectivo surge este blog que tem um papel fundamental não só para eu aprender com os outros mas também para dar a conhecer determinados temas. Alguns temas esses surgem por uma desmesurada e incompreesnsivel curiosidade; outros por uma mera necessidade.

Assim deixo alguns temas que me têm suscitado algum interesse, em parte devido à necessidade...

Peço desculpa por alguns serem em inglês, mas penso que o conteúdo, por si só, é suficiente para perdoar a falha de não ser na nossa lírica lingua Portuguesa.

Sempre em busca do conhecimento
Essa longa viagem

Boato


«Boatos: o meio de comunicação mais velho do Mundo»

O boato é um fenómeno que se manifesta particularmente em situações de crise ou de falta de informação.
À partida, o processo de formação de um boato ocorre involuntariamente. O boato origina-se nas primeira trocas de comunicação entre indivíduos. A comunicação estabiliza-se na 6ª
transmissão. O boato não tem feedback. Nunca se consegue chegar junto da fonte que o originou. A fonte aparece com credibilidade mas não se consegue identificar quem é.
Ingredientes para a formação de um boato
• Deverá ser um assunto interessante para um número alargado
de pessoas (morte, paixão, doenças, catástrofes, figuras
públicas, etc.);
• Ambíguo, que possibilite diferentes interpretações.
Matérias que gerem ansiedade propagam-se com maior rapidez. Mecanismos psicológicos que ocorrem entre a informação que dá origem ao boato e ao boato propriamente dito
• Nivelamento;
• Estimulação;
• Assimilação.
Nivelamento
À medida que o boato circula vai comportando cada vez menos palavras até atingir uma forma estereotipada em que permaneça inalterado.
Estimulação
Consiste na selecção de um número limitado de pormenores, escolhidos devido ao seu carácter insólito, e consiste, ao mesmo tempo, no exagero desses mesmos pormenores e na sua adaptação ao presente.
Assimilação
Apoia-se nas paixões de quem escuta, ou seja, apresentam-se as coisas como as pessoas estão habituadas a vê-las. A assimilação é feita através da lógica de cada um, dos preconceitos e interesses.
Essência do rumor
A essência do rumor ou do boato, consiste numa persuasão que nasce da própria actividade de transformação da notícia original feita em função das representações sociais. Lei básica do boato de Allport A quantidade de rumor varia segundo a importância do assunto, multiplicada pela ambiguidade do tema.
Desmentido
Para desmentir um boato, deve-se tentar chegar o mais perto possível da origem de forma a aí actuar com mais força. Se algo originou o boato, então existe uma razão para tal.
Ralph Rosnow
«O boato é uma espécie de hipótese, uma especulação que ajuda as pessoas a darem sentido a uma realidade caótica ou que lhes faculte um ténue sentimento de controlo sobre o mundo
ameaçado.»
Kinnel
«Quanto mais as pessoas se assustam com um boato, mais o apregoam.»

PÚBLICO, MASSA E MULTIDÃO



"É uma grande desgraça não poder estar só"
LA BRYÈRE citado por EDGAR ALAN POE

Em 1840, o escritor norte-americano Edgar Alan Poe publicou um texto, depois
classificado pelos organizadores de suas obras completas como conto filosófico. "O Homem
das Multidões" é narrado por um homem que vai a Londres fazer um tratamento de saúde e se
diverte observando, do saguão do hotel, a multidão que passa na rua.
No começo, o narrador vê apenas uma massa indistinta. Em breve, porém, desce aos
detalhes e consegue ver padrões de roupas, comportamentos, jeitos de andar. Vários públicos
se descortinam à sua frente: escreventes, homens de negócio, advogados, homens de lazer...
À certa altura, um homem chama sua atenção. É um velho entre 60 e 70 anos. Sua
fisionomia apresenta um misto de triunfo, alegria, terror e desespero.
A impressão causada pelo personagem é tão forte, que o narrador passa a segui-lo. O
homem envereda pela rua repleta de gente e, chegando à praça, passa a andar em círculos,
confundindo-se com a multidão. Quando o fluxo diminui, o velho se sente angustiado e procura
outra multidão. A narrativa acompanha durante toda a noite sua busca por agrupamentos
humanos.
No final, o escritor o abandona com um comentário: "Esse velho é o tipo e o gênio do
crime profundo. Recusa estar só. É o homem das multidões. Seria vão segui-lo, pois nada
mais saberei dele, nem de seus atos. O pior coração do mundo é mais espesso do que o
Hortulus Animae e talvez seja uma das grandes misericórdias de Deus o fato de que ele
jamais se deixa ler".
Em "O Homem das Multidões", Edgar Alan Poe antecipou em muitos anos a discussão
sobre a sociedade de massa.
O século XIX viu aparecer um novo tipo de agrupamento humano. Antes a regra eram
pequenas vilas, nas quais todo mundo se conhecia e se relacionava. O processo de
industrialização forçou uma grande quantidade de pessoas a se deslocarem para grandes
centros nos quais as pessoas não se conheciam e não tinham qualquer relacionamento mais
íntimo.
A aglomeração maciça de seres humanos forçou o contato pessoal com pessoas
desconhecidas, muitas das quais permanecerão sempre desconhecidas. Não conhecemos o
homem que nos vende alimentos e a moça do correio é apenas mais uma funcionária postal.
O homem moderno está rodeado de gente, mas é solitário.
Essa nova realidade tornou patente um novo tipo de comportamento, que não era
individual, mas coletivo. Para explicá-los surgiu a psicologia das massas.
Dois pioneiros dessa nova disciplina foram o italiano Scipio Sieghele e o francês
Gustav Le Bom.
Sieghele escreve A Massa Criminosa, no qual analisa os crimes coletivos, como
revoltas e lichamentos, e conclui que não há como indicar culpados. Os que são incriminados
são sempre bodes-expiatórios, pois é sempre impossível determinar um culpado no meio da
multidão.
Sieghele trabalha o conceito de multidão como agrupamento geográfico e resultado de
uma sugestão, como se seus integrantes estivessem sonâmbulos, hipnotizados. Em toda
multidão há condutores e conduzidos, hipnotizadores e hipnotizados. O autor italiano foi um
dos primeiros a perceber a importância dos meios de comunicação de massa nesses novos
tipos de comportamento. Para ele, a imprensa seria uma manipuladora da massa.
Para Gustav Le Bon, a civilização estava em perigo com a emergência das massas.
Os líderes políticos do século XX seriam aqueles capazes de manipular as mesmas através da
mídia (uma profecia acertada, se lembrarmos de Hitler, Mussolini e Getúlio Vargas).
O pensador Gabriel Tarde discordou desse ponto de vista, argumentando que a massa
é geográfica e o publico é formado socialmente. Para ele, a imprensa estava criando públicos,
ao permitir que pessoas distanciadas geograficamente pudessem partilhar idéias.
Os pensadores contemporâneos perceberam a dificuldade em se trabalhar com os
conceitos de multidão e massa de maneira conjunta e resolveram separá-los. Assim, há três
tipos de comportamentos coletivos.
O primeiro deles, e o mais primário, é a multidão. Sua origem é biológica e remonta aos
tempos em que o homem passou a viver em sociedade.
Na multidão, os integrantes são comandados pela ação de ferormônios, hormônios
expelidos pelo corpo, que fazem efeito ao serem percebidos olfativamente.
Todos que estiverem no campo de ação dos ferormônios são contagiados e passam a
agir como uma só pessoa, de forma irracional. É o caso de linchamentos, revoltas e tumultos
em locais repletos de gente. É comum, por exemplo, que em casos de incêndio em casas de
shows morram mais pessoas pisoteadas do que em decorrência do fogo.
A criação de uma multidão passa por quatro estágios.
No primeiro deles, há um acontecimento emocionante (a informação de que um
estuprador foi preso, um trem de subúrbio que deixa de funcionar justamente na hora em que
os trabalhadores voltam para casa).
No segundo, há uma "moedura": os indivíduos se encontram, se chocam, começam a
trocar ferormônios.
No terceiro, surge uma imagem, uma idéia de ação, a exaltação coletiva é direcionada
para um objetivo (lichar o criminoso, quebrar o trem).
Finalmente, no quarto estágio, a multidão, já totalmente dominada pelos ferormônios,
age.
Uma multidão é como um estouro de boiada: é impossível pará-la com a força ou com
a razão. Atirar adianta muito pouco, pois os que estão atrás empurram os que estão na frente,
até chegar aos seus atacantes.
Segundo Flávio Calazans, só há duas maneiras de deter uma multidão: ou dando um
segundo objetivo a ela, ou jogando gás lacrimogêneo.
Os gás impede que as pessoas continuem recebendo os ferormônios umas das outras.
Por outro lado, a irritação nos olhos e a fumaça dão aos integrantes da multidão a impressão
de que estão sozinhos. Um indivíduo só age como multidão se tiver certeza de que está
incógnito. É a certeza de que seus atos individuais não serão percebidos que dá à multidão a
liberdade de agir. É por isso que são comuns as desordem em períodos de blecaute.
Dar um segundo objetivo também é eficiente, pois uma segunda proposta de ação leva
a multidão a pensar, e uma multidão que pensa deixa de ser multidão.
Em uma perspectiva fisiológica, a multidão seria um comportamento coletivo governado
pelo complexo R. Essa primeira camada de nosso cérebro é responsável pela autopreservação.
É aí que nascem nossos mecanismos de agressão e ações instintivas.
O comportamento de massa é uma novidade do século XIX e surge em decorrência do
processo de industrialização e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa.
A massa age como multidão, de maneira irracional e manipulável. Mas não há
proximidade física. Não há ferormônios envolvidos.
Nos grandes centros, as pessoas estão isoladas, atomizadas, e a principal influência
acaba sendo os meios de comunicação de massa. É a multidão solitária.
A principal característica da massa é o pseudo-pensamento. A massa acredita que
pensa, mas só repete o que houve nos meios de comunicação de massa. Segundo Luiz
Beltrão, o poder massificante da sociedade é de tal ordem que o indivíduo se recusa a
acreditar que é apenas uma peça da engrenagem social e que suas idéias são idéias que lhe
foram implantadas pela mídia. Ao ser perguntado o porque de suas idéias, o integrante da
massa repetirá exatamente o que ouviu de seu apresentador de TV favorito. Ou então dirá
simplesmente: "É claro que é assim. Você não viu que saiu no jornal?" ou "mas todo mundo
gosta disso, por que você não gosta?"
Fisiologicamente, o comportamento de massa é identificado o complexo límbico, a
camada do cérebro característica de mamíferos e que governa o instinto de rebanho. Assim, a
aspiração máxima do integrante da massa é ser aceito pelos seus pares. Ele fará qualquer
coisa para se adequar e procurará repetir os outros em tudo. É o famoso Maria vai com as
outras.
O comportamento de massa fica claro em pessoas que têm ânsia de andar sempre na
moda. Vestir a roupa do momento é uma forma de não "estar por fora". Claro que quem ditará
o que é moda são os meios de comunicação de massa, que se aproveitam dessa necessidade
de rebanho, de aceitação social, para vender seus produtos e manipular a massa.
Como a massa não pensa, ela precisa de alguém que pense por ela, ela precisa de um
pai, que lhe diga o que fazer. Esse papel já foi exercido por líderes políticos, como Hitler e
Getúlio Vargas. Não é à toa que o ditador brasileiro era chamado de "pai dos pobres". Hoje
quem normalmente exerce essa função são figuras importantes da mídia, tais como
apresentadores de TV. Esse inclusive é um fator potencialmente perigoso da massa. Como
obedece cegamente aos impulsos recebidos pela mídia, a massa pode adotar um tom de
verdadeiro fanatismo contra qualquer um que ouse discordar de seus pontos de vista.
Como a massa não tem consciência de sua situação, ela é feliz, feliz como o gado na
engorda. Não é à toa que Zé Ramalho nos diz, em musica cantada como toada de boi: "Eh!
Oh! Oh! Vida de gado Povo marcado eh! Povo feliz...".
O homem das multidões de Poe era um homem-massa, incapaz de estar só, mas
também incapaz de criar relacionamentos profundos. Sua única aspiração era ser aceito pelo
grupo, mesmo que para isso precisasse sacrificar sua identidade. Poe o abandona dizendo
que de nada adiantaria continuar a segui-los, pois tudo que se poderia saber dele já se sabe.
A massa não tem é oca por dentro. São pessoas de palha, como definiu Ray Bradbury no livro
Fahrenheit 451, referindo-se às pessoas que assistiam à televisão.
A terceira forma de comportamento coletivo é o público. A palavra vem do latim
"publicus", que significa depois da adolescência. Ou seja, público é aquele que alcançou a
maturidade intelectual e psicológica.
A característica do público é ser racional e defender sua individualidade. Enquanto na
multidão, o indivíduo quer ser anônimo, enquanto na massa, quer ser igual aos outros, no
público ele quer ser ele mesmo.
O público não se deixa manipular e seus argumentos são frutos de um raciocínio
interior. O público defende tal ponto de vista porque refletiu sobre ele e chegou à conclusão de
que essa é a melhor idéia, e não porque alguém lhe disse. O comportamento de público é
governado pelo neocórtex, a camada mais recente do cérebro, que controla a linguagem
simbólica, a leitura, o cálculo, a criatividade e a crítica.
Em uma perspectiva junguiana, o público é aquele que passou por um processo de
individuação e tornou-se capaz de tomar decisões sozinhos, sem precisar de um pai que lhe
diga o que fazer.
Da mesma forma que a mídia cria massa, pode também ajudar a criar público. Listas
de discussão e sites como o Digestivo Cultural podem ser espaços privilegiado para que esses
compartilhem idéias e troquem informações. Da mesma forma, programas de televisão e
filmes podem criar uma consciência crítica em seus receptores.

Prof. Doutor Ivan Carlo

quarta-feira, novembro 10, 2004

1ª abordagem dinâmica sobre grupos


ou como brotamos de uma série interminável de gerações de assassinos




Freud debruça-se sobre o fenómeno dos grupos, e pelo papel do inconsciente na vida colectiva no seu livro "Totem e Tabu" (Freud, 1913). Já antes Le Bon em " A Psicologia das Massas" se refere a fenómenos afectivos colectivos, inconscientes, nos quais os membros da multidão estão implicados. Freud interessando-se sobre este trabalho e sobre trabalhos sócio-antropológicos sobre os fenómenos totémicos, bem como a toda a sua experiência em grupos de trabalho e os conflitos que aí surgiram, expande o complexo de Édipo para a base de sustentação da toda a cultura e educação.

Para Freud (1913) os dois tabus do totemismo (proibição do parricídio e do incesto) fundam a moralidade humana, onde o mito da horda primitiva surge como estruturante dos processos relativos tanto de grupos restritos como de grandes colectividades e organizações.

MITO: Uma horda primitiva dominada por um pai tirano e violento, apropriando-se das mulheres e expulsando os filhos, defendendo assim o seu direito de propriedade. Os irmãos expulsos revoltam-se e matam o pai, em forte cumplicidade e onde nenhum elemento isolado se diferencia, realizam um festim em que o morto é comido. Esta comunhão totémica consubstancia o modelo de identificação primitiva em que a incorporação da força e poder paterno, funda a culpabilidade dos filhos, materializando a identificação de cada um ao antepassado invejado e temido. Por esta idealização, simboliza-se a solidariedade e igualdade entre todos e a sua identificação mútua, fundando-se a sociedade nova assente em dois tabus: renunciar a matar e comer o animal totémico (substituto do pai morto idealizado) e renunciar a ter relações sexuais com as mulheres ou as filhas do pai (precursores do interdito do incesto e do principio da exogamia). O amor fraternal podia tomar o lugar dos ciúmes primitivos que existiam entre os irmãos (Freud, 1913).

A figura patriarcal autoritária, através da sua força legisladora e orientadora, organiza toda a vida grupal. Da mesma forma que existe um homem primitivo em cada individuo existe uma horda primitiva em cada da grupo (Freud, 1921).


A ambivalência de sentimentos sentidos pelas crianças em relação à figura paterna, semelhante à dos subordinados em relação à figura de autoridade; a idealização do pai morto, divinizado ou transformado em objecto de culto, protótipo de sociedade ideal, onde todos os homens, filhos de um pai simbólico seriam irmãos e iguais; a eficácia de uma morte aplicada em conjunto como forma reforço da coesão grupal; a teia comum de intenções que atenua os sentimentos individuais de culpabilidade, em que a identificação de cada um ao personagem assim comemorado permite encarnar a unidade de acção grupal (Freud, 1921)

A proibição do incesto torna-se, para o autor, o fundador da vida social. No mito a morte colectiva do pai, torna-se simbólica aos membros de uma comunidade, permitindo a sua idealização e a vivência de sentimentos amor\ódio. A incorporação da sua imagem é também a assunção de uma lei comum, defendendo o grupo perante as ameaças provocadas pela diferença e heterogeneidade (Sá, 2003).

É a raiz não só do espírito de grupo, mas também das noções de justiça, de dever, essenciais ao processo civilizacional.

Em "Psicologia das Massas e Análise do Eu", Freud (1921), delineia a segunda tópica, concebendo o aparelho psíquico como estrutura constituída pelo Id, Eu e Supereu. E também refere-se à identificação como o mecanismo fundamental no funcionamento dos grupos, comparando o mecanismo de identificação à sugestão hipnótica e ao estado amoroso. O autor dá o exemplo de duas grandes organizações, o exército e a igreja, funcionando dois tipos de identificação, uma em relação ao líder e outra em relação aos pares. O líder é interiorizado e a sua imago toma, no indivíduo da organização, o lugar do Ideal do Eu, tornando-se este comum a todos os membros da organização, assegurando a unidade colectiva. Estabelece-se também um conjunto de identificações entre os elementos do próprio grupo, ao nível do Eu, conduzindo ao reforço e manutenção da coesão grupal.
Para Freud um grupo existe porque "…um certo número de indivíduos colocaram um só e mesmo objecto no lugar do seu Ideal do Eu e, consequentemente, se identificaram uns com os outros em seu Eu." (Freud, 1921).

As identificações, mais imaginárias em relação ao líder e mais simbólicas em relação aos pares, funcionam para o grupo como protecção em relação aos riscos de ruptura e, de manutenção de baixos níveis de agressividade intragrupal na identificação entre pares, e a admiração da imago de um líder bom e poderoso contribui para que reine a concórdia apelando à luta contra o inimigo externo (Sá, 2003)

De referir a evolução do pensamento de Freud nestas duas obras fundadoras da psicanálise grupal. Em "Totem e Tabu" antecipa o conceito de Supereu, instância psíquica esta que viria a substituir a censura entre as instâncias da primeira tópica, e em "Psicologia das Massas e Análise do Eu" com a segunda tópica e, a passagem de um modelo do mundo mental fisicista para uma nova representação do aparelho psíquico já influenciada pelo social, pelo estudo da vida dos grupos. O funcionamento mental deixa de ser uma entidade unívoca, para se constituir como "um teatro interior preenchido por personagens representantes de pulsões, de afectos e mecanismos de defesa, bem como imagens interiorizadas dos pais, educadores e figuras significativas da vida do sujeito." (Sá, 2003).

Laplanche e Pontalis (1967) referem a progressiva antropormorfização nos conceitos, afastando-se das ciências físicas, "o campo intra-subjectivo tende a ser concebido segundo o modelo das relações inter-subjectivas, os sistemas são representados como pessoas relativamente autónomas na pessoa". Esboço das relações objectais desenvolvidas por M. Klein.

A conceptualização do aparelho psíquico incorpora, segundo Freud, a interiorização do mundo grupal onde o sujeito realiza as suas primeiras experiências, estando a família no núcleo deste processo. Os principais subsistemas psíquicos têm origem nos movimentos de identificação e projecção. O Supereu e o Ideal do Eu, sistema de regras e interdições e o sistema de valores pessoais, resultam da interiorização das relações essencialmente entre pais e filhos, respectivamente no plano da autoridade e da estima, mas não se restringem a este grupo, "cada indivíduo faz parte de vários grupos, está ligado por vínculos de identificação em vários sentidos e construiu o seu Ideal do Eu segundo os modelos mais variados" (Freud, 1921).

sábado, novembro 06, 2004

Apresentação

Olá, sou novo por cá o que me impulsiona a apresentar-me, no que diz respeito à minha orientação académica e teórica, na qual os meus futuros posts serão influênciados. Na psicologia fiz minha formação, ainda e sempre incompleta, na vertente clínica elegí o meu método preferido de análise dos fenómenos que não compreendo, na psicanálise bebi e bebo, primeiro sem o saber, depois sabendo-o sem o imitar. Pricipalmente na análise individual e depois na análise de grupos e organizações. E actualmente, no campo da epistemologia das ciências, da análise dos paradigmas em psicanálise e na psicologia em geral, e a sua influência em todos os desenhos ciêntificos bem como a todos os níveis de investigação. Sou homem, jovem, e agnóstico, e nisto traço a fronteira que em vez de me definir deveria ser de explorar, como toda e qualquer caracterização. Sou um ciêntista de fé, i.e., como qualquer ciêntista acredito haver sempre algo para ser descoberto, aparentemente sem razão, só fé.
Abraço